Afirmações de alguns políticos sobre o abandono
do Ultramar a que chamaram “DESCOLONIZAÇÃO”
A intervenção que vai seguir-se poderá parecer a alguns que não cabe bem no âmbito de um Congresso deste tipo.
Mas, na realidade, todos os problemas e reivindicações aqui apresentados tiveram uma origem comum: o trágico abandono do Ultramar a que pretensamente se convencionou chamar “descolonização”.
Por outro lado, chega até nós a revolta dos Espoliados do Ultramar por recentes atitudes com que, des-pudoradamente, se pretende calar as nossas desgraças ou minimizar as nossas dificuldades.
Entendemos, por tudo isto, que seria oportuna e bem aceite neste Congresso qualquer contribuição que viesse esclarecer os portugueses íntegros, das posições publicamente assumidas sobre o Ultramar por alguns destacados políticos que, em 1974 e 1975, representavam e responsabilizavam o Estado Português.
As declarações que vamos ler — uma pequena amostra, pois o tempo que nos é concedido mais não permite, ficando o restante para publicação na revista do Congresso foram recolhidas da imprensa diária dessa altura, em especial do insuspeito «Diário de Notícias».
Serão, em grande parte, uma surpresa para todos vós, que nesses recuados e conturbados tempos, estáveis mais preocupados com a sobrevivência própria e dos vossos familiares, do que com as afirmações de políticos recém-nascidos em quem até muitos de nós chegámos a acreditar, movidos pela esperança de que teriam a capacidade de conseguir o que era fácil: um futuro comum melhor, em África, para africanos e europeus.
Pedimos, pois, a vossa atenção:
Extracto de parte da Proclamação ao País, lida pelo General António de Spínola, como presidente da Junta de Salvação Nacional, às primeiras horas do dia 26/4/74:
“... a Junta de Salvação Nacional, a que presido, constituída por imperativo de assegurar a ordem e de dirigir o País para a definição e consecução de verdadeiros objectivos nacionais, assume perante o mesmo o compromisso de: Garantir a sobrevivência da Nação, como Pátria Soberana no seu todo pluricontinental.”
Seguem-se mais sete parágrafos, sendo este o único que interessa citar.
Declarações do General Costa Gomes, representando a J. S. N., no dia 4/5/74, em Luanda:
«Quis o destino que seja precisamente na maior parcela do Portugal de hoje que sinta a obrigação de exprimir em público uma interpretação sincera do fenómeno político agora em curso.»
«Nenhuma província, nenhum grupo e nenhuma raça terão permissão para impor uma solução aos nossos problemas políticos que não tenha passado pelo crivo de um teste democrático.»
«É
nossa intenção continuar a lutar contra as guerrilhas e essa posição manter-se-á
até que os guerrilheiros aceitem a nossa oferta para depor as armas e se
apresentem como um partido político legal.»
Palavras de saudação aos moçambicanos do General Costa Gomes, à chegada a Lourenço Marques, no dia 10/5/74:
«Quis a Junta de Salvação Nacional significar o seu alto apreço ao povo moçambicano e fazer sentir ao Mundo que Portugal europeu continua firme e determinado no seu apoio aos irmãos ultramarinos. Nesta intenção radica a minha viagem e do general Diogo Neto que, em nome da Junta de Salvação Nacional, saudamos um povo irmão que desejamos próspero, feliz e pacifico.»
Extracto da conferência de imprensa dada pelo General Costa Gomes, em Lourenço Marques, no dia 11/5/74:
«Teria havido quem admitisse que o Movimento das Forças Armadas tudo planeara para fugir ao sofrimento da guerra, teria havido quem se convencesse que esta revolução equivaleria à entrega imediata e incondicional dos povos irmãos do Ultramar, teria havido desesperos doentios de onde brotaram planos inconsequentes de independências unilaterais, teriam também existido ingénuos que trocaram pesadelos de tímidos pelo sonho de um navio com apartamento familiar e com porão largo para bagagens abastadas. Pois bem, que fique definido de uma vez para sempre que os homens do Movimento das Forças Armadas e a Junta de Salvação Nacional que elegeram são o conjunto humano com provas dadas no mato e na retaguarda, jamais negaremos apoio em todos os campos aos povos irmãos do Ultramar.»
«Desde o início que Portugal subscreveu a Carta das Nações Unidas, em cujo clausulado se vincou ao respeito pela autodeterminação dos povos. A Junta de Salvação Nacional é garante desse principio entendido em termos de direito internacional à luz do qual o povo moçambicano oportunamente decidirá o seu destino. Poderão, então, escolher entre um extremo da independência completa e outro extremo da integração total. Verdade seja que não é nos extremos que reside a virtude e que pessoalmente acredito que o povo de Moçambique saberá encontrar o equilíbrio num figurino original de enquadramento político no grande espaço português.»
E, a terminar:
“... Portugal europeu está disposto a apoiar incondicionalmente o povo de Moçambique em todos os campos e em todas as dificuldades. Repetindo a ideia: por um Moçambique livre e autodeterminado estamos mais do que nunca dispostos a todo o tipo de sacrifício. Saudamos a nova era, em que homens de todas as cores, etnias e credos, são mais livres ao saudar a bandeira verde—rubra.”
Durante a conferência de imprensa que se seguiu e em resposta à questão posta por um jornalista estrangeiro («Se a Frelimo não aceitar as condições propostas, o exército estará preparado para continuar indefinidamente a luta e aumentar a sua intensidade»), respondeu o General Costa Gomes:
«Se a Frelimo não aceitar esta oferta que é feita com a maior sinceridade e com o espírito mais aberto, o exército não tem outra solução se não continuar a luta e intensificá-la se possível.»
E, quando outro jornalista lhe perguntou «qual a reacção do povo português e dos partidos políticos em formação em Portugal no caso da guerra se intensificar por a Frelimo não aceitar as condições estabelecidas», respondeu:
«O povo português está preparado exactamente para mais essa prova que, por todos os meios, desejaríamos evitar, dando as maiores facilidades a todos os partidos para entrarem numa era de paz, numa era onde todos possamos esquecer amarguras antigas e realmente dar as mãos para a construção de um futuro novo.»
Palavras do Dr. Almeida Santos, aos Órgãos de Informação, no dia 4/6/74:
«Angola e Moçambique aceitaram com júbilo autodeterminarem o seu destino.»
«Receiam alguns que as negociações ponham em risco
aquilo que são, que têm, ou de que dependem. Afligem-se sem lógica, e o mais
das vezes sem razão. Antes da ofensiva de paz, em boa hora encetada, e que
começa a produzir os seus frutos, repousavam sobre uma bomba de espoleta
retardada.»
Para se avaliar a importância da Lei n.º 7/74, em relação ao
que primitivamente havia sido disposto no Programa do M. F. A. em relação ao
ultramar, transcrevemos o n.º 8, do capítulo B:
8
— A política ultramarina do Governo Provisório, tendo em atenção que a sua
definição competirá à Nação, orientar-se-á pêlos seguintes princípios:
a) Reconhecimento de que a solução das
guerras no ultramar é política, e não militar;
b) Criação de condições para um debate
franco e aberto, a nível nacional, do problema ultramarino;
c) Lançamento dos fundamentos de uma
política ultramarina que conduza à paz.
Portanto, houve muito mais do que um «esclarecimento do alcance» do n.º 8, do
P. M. F. A. pois pôs-se de lado «o debate franco e aberto, a nível
nacional, do problema ultramarino» e abriu-se caminho para, ao abrigo de uma
«legalidade revolucionária» que contestamos, efectuar a entrega do
Ultramar aos chamados Movimentos de Libertação.
No dia 27/7/74, o Presidente da República, General Spínola, fala pela
primeira vez aos portugueses sobre
«Reconhecimento
imediato do direito à independência dos povos da Guiné, Angola e Moçambique.»
E
faz as seguintes afirmações:
“A quantos sonharam, honestamente, com
uma África Lusa, dirijo uma palavra de confiança nas novas perspectivas que se
abrem e de tranquilidade quanto à segurança da vida que construíram na terra a
que também chamam sua.
Nada terão a recear, pois consideramo-nos em posição
de poder confortá-los com a certeza de que as autoridades dos novos países
honrarão o sentido de justiça decorrente do seu estatuto de nações pluriraciais
de expressão portuguesa.»
Kurt Waldheim, então Secretário-Geral das Nações
Unidas, vem a Lisboa, em 2/8/74, a convite do Dr. Mário Soares, Ministro dos
Negócios Estrangeiros, e este declara aos jornais:
«Sinto-me
muito satisfeito que o Secretário-Geral das Nações Unidas tenha aceitado e
concretizado finalmente o convite que eu lhe fiz em nome do Governo Português,
quando estive com ele em Nova Yorque, e que possa iniciar hoje esta visita, que
terá, certamente, consequências históricas para Portugal e para o processo de
descolonização que, com o apoio e de acordo com os princípios das Nações
Unidas, se começa neste momento a concretizar.»
A finalizar a visita do secretário-geral das Nações
Unidas, Kurt Waldheim, a Portugal, o Departamento de Informação Pública das
Nações Unidas publicou um comunicado, do qual transcrevemos os pontos de maior
interesse:
1 - O Governo Português reafirma as suas obrigações
quanto ao capítulo XI da Carta das Nações Unidas e em conformidade com a
Resolução n.º 1514 (XV) da Assembleia Geral, que contem a
«Declaração sobre a concessão de independência aos povos e territórios
coloniais», e neste sentido decide cooperar plenamente com as Nações Unidas no
que respeita à aplicação das disposições dos mencionados capítulos, declaração
e relevantes resoluções acerca dos territórios sob administração portuguesa.
5 - O Governo Português reconhece o direito
do povo de Moçambique à autodeterminação e independência e está disposto a
aplicar as decisões das Nações Unidas a este respeito.
O Governo
Português, com vista à execução desta declaração de princípio, e no
prosseguimento dos contactos anteriormente havidos, tomará medidas imediatas
para entrar em negociações com representantes da Frelimo para acelerar o
processo de independência daquele território.
6 — O Governo
Português reconhece o direito à autodeterminação e independência do povo de
Angola e está disposto a aplicar as decisões das Nações Unidas a este respeito.
O Governo
Português tem intenção de estabelecer, em breve, contactos com os movimentos de
libertação de modo a poderem iniciar-se, logo que possível, negociações
formais.
Em termos semelhantes é feita
referência a Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. E o comunicado
termina com o parágrafo
8 — O Governo Português
manifesta a esperança de que uma vez que adoptou medidas concretas para respeitar
as disposições da Resolução n.º 1514 (XI), a Assembleia Geral das Nações Unidas
possa reconsiderar as suas anteriores decisões sobre o assunto e dar a Portugal
a possibilidade de participar plenamente nos programas social, económico,
financeiro e técnico das Nações Unidas e das agências especializadas, bem como
participar das actividades daqueles órgãos.
Em 7/8/74, o prof. Veiga Simão, embaixador de Portugal junto da O. N.
U., após a visita de K. Waldheim, disse o seguinte:
«Podemos estar confiantes, daqui para o
futuro é só acertar pormenores. Um passo histórico foi dado. Temos o apoio das
Nações Unidas e a boa vontade do Mundo. Estamos confiantes, repito, de que tudo
chegará a bom termo.
Os «hábeis» políticos
portugueses continuaram dando preferência e insistindo nas negociações directas
com os chamados «movimentos de libertação» liderados por uns escassos centos de
janotas bem vestidos, bem nutridos e bem falantes, ignorando as ofertas da
nossa velha aliada Inglaterra em nos apoiar com conselheiros experientes em anteriores
situações de descolonização.
E, numa atitude de total falta de experiência como
negociadores (ou de obediência a nebulosos interesses?), deixa-se perder a
histórica e soberana oportunidade de entregar à O. N. U. a responsabilidade e
os altos custos da nossa descolonização -, já que este Organismo havia sido o
mais empenhado — até com o recurso a sanções! - em forçar Portugal a abandonar
os seus territórios do Ultramar.
O seguinte parágrafo consta do Comunicado de 9/8/74,
da Junta de Salvação Nacional, a propósito de Angola:
«n.º 5 — A Junta de Salvação Nacional reitera
solenemente, perante toda a população de Angola, que o Governo Provisório
tomará todas as medidas necessárias a salvaguardar a vida e os haveres dos
residentes de Angola de qualquer cor ou credos de acordo com o Programa do
Movimento das Forças Armadas.»
À partida de Lisboa para Luzaca, em 4/9/74, o Dr.
Mário Soares, como Ministro dos Negócios Estrangeiros, faz as seguintes
declarações:
«Parto bastante optimista para as
conversações de Lusaka. Durante mais de três meses fizemos um extenso trabalho,
no sentido de podermos chegar, agora, a um acordo com a Frelimo. O brigadeiro
Otelo de Carvalho e eu tivemos um primeiro encontro em Lusaka com Samora
Machel, depois registaram-se outros contactos a vários níveis: o major Melo
Antunes fez duas visitas a Dar-Es-Salam, onde também esteve o ministro Almeida
Santos e eu para conversações com o presidente da Frelimo; tudo isto constitui
os pontos fundamentais para um acordo, acordo esse do qual sairá, espero, um
Governo de Transição.
E
afirmou ainda:
«Os acordos de cooperação que estão em estudo
são muito vastos e posso dizer que os interesses de Portugal e dos portugueses,
que são legítimos e reconhecidos pela própria Frelimo, serão devidamente
acautelados. Partimos pois, todos nós, com uma perspectiva optimista e com
grande confiança.»
No livro «Conversas com Adelino da Palma Carlos», de Helena Sanches
Osório, a pág. 54, diz-se que o Dr. Mário Soares e o Dr. Almeida Santos, no
regresso de Lusaka, se queixaram ao Presidente da República, general Spínola,
de que «não tinham sido ouvidos para
coisa nenhuma» e ainda que «Melo Antunes decidira tudo, sozinho, com a
Frelimo».
Não temos o direito de duvidar desta afirmação do insigne professor, aliás, até hoje nunca desmentida, segundo a qual o general Spínola teria reagido com o seguinte brado «Se apanho Melo Antunes, mando-o fuzilar aqui mesmo, no Palácio de Belém» (pág. 54, da obra citada).
É evidente que a delegação portuguesa enviada a Lusaka exorbitou as suas funções. A despeito disto, o acordo de Lusaka foi assinado pelos oito representantes do Estado Português no dia 7/9/74 e aprovado depois de ouvidos a Junta de Salvação Nacional, o Conselho de Estado e o Governo Provisório, nos termos do art.º 3.º da Lei n.º 7/74, de 27 de Julho.
No dia 9/7/74 recebeu a assinatura do Presidente da República, general António Spínola e foi publicado no Boletim Oficial n.º 117, l Série, de 10/10/74.
Devem ser muito fortes os argumentos de que Melo Antunes se serviu para convencer todos os interventores aqui indicados e o próprio Presidente da República. E ainda continuar por muitos anos nas altas esferas da política portuguesa.
Tão «fortes» que, quando forem tornados públicos, farão tremer de raiva todos os portugueses dignos.
Restou-nos esta triste realidade: do Acordo de Lusaka não consta uma única palavra que comprometa a Frelimo a respeitar depois da independência os bens e interesses legítimos dos portugueses domiciliados em Moçambique (como quatro meses mais tarde foi adoptado no Art.º 54.º, do Acordo do Alvor).
E ficamos pasmados quando, atentos a estes erros colossais que afectaram terrivelmente as nossas vidas e tiveram trágicas consequências em Angola e Moçambique, ouvimos em 1990, o Dr. Mário Soares afirmar publicamente que NÃO ESTÁ ARREPENDIDO DO QUE FEZ E QUE, SE HOJE TIVESSE DE VOLTAR ATRÁS, TORNARIA A COMETER AS ACÇÕES QUE PRATICOU!...
Fingindo ignorar os infelizes termos em que também ele assinou (sem negociar!) o Acordo de Lusaka, no prefácio do livro “Soares — Portugal e a liberdade”, o Dr. Almeida Santos, procurou sem êxito aliviar responsabilidades comuns e escreveu:
«Os negociadores políticos limitaram-se a certificar o óbito das soluções militares, a juntar os cacos das ilusões perdidas, a salvar a face de uma grande Pátria com uma grande História.»
E, em seguida, tem o despudor de afirmar (pág. 16):
«De resto, bom é que se não esqueça que Mário Soares nada teve a ver com a fase da descolonização posterior aos acordos, ou seja a fase da transição para a independência — com os correspondentes governos transitórios — traduzida no ensarilhar das armas, na outorga progressiva das prerrogativas da soberania às novas autoridades, na transferência dos serviços, no apear das fotografias, na efectiva protecção das pessoas dos interesses e dos bens. Quem reler hoje os acordos firmados, concluirá, que, apesar de tudo, o mal não estava neles.»
É nomeado Alto Comissário de Moçambique o contra-almirante, Vítor Crespo. No seu acto de posse, em 10/9/74, o Presidente da República, General Spínola, afirma a dado passo:
«Conhece V. Exa. o meu pensamento sobre a
descolonização, conhece igualmente o pensamento da Frelimo e do povo
moçambicano. Conhece, assim, o complexo de condicionalismos que estão na base
do desvio que aceitámos da linha do processo de descolonização que
idealizámos, desvio que está na origem da incompreensão dos que desconhecem os
meandros dramáticos da hora histórica que vivemos.
Este conhecimento da realidade viva dos factos e as altas qualidades de inteligência que certamente estiveram na base da escolha para o cargo que vai ocupar, são garante de que V. Exa. reúne as qualidades necessárias para o cabal desempenho da complexa missão de conduzir o processo de descolonização de Moçambique, em paz, em ordem, com dignidade, com patriotismo, no respeito pelo nosso passado, pêlos nossos maiores de África e, acima de tudo, pela bandeira verde-rubra da Pátria Portuguesa, para que o novo Estado de Moçambique venha a ser efectivamente uma Nação de expressão lusa e indestrutivelmente ligada à sua MÃE PÁTRIA.»
Em resposta e entre várias palavras de circunstância, Vítor Crespo disse:
«Calculam V.
Exas. como, por isso, me entristeceu ter nos últimos dias assistido ao
desencadear de uma onda descontrolada de reacção, provocada por alguns elementos
activistas que ainda não quiseram entender que o
futuro de Moçambique passa obrigatoriamente pela sua descolonização e
independência, desde que assegurados os interesses legítimos dos portugueses
que naquelas terras ajudaram a construir em paz e com o trabalho humilde e
honesto de tantas gerações, a realidade que é Moçambique.»
Uns dias antes, em 6/9/74, após terem concluído o
Acordo «que satisfez ambas as partes» e o qual seria assinado no dia
seguinte, o secretário da Defesa e da Segurança do Movimento de Libertação de
Moçambique, Joaquim Chissano, teria dito aos jornalistas:
«Estamos muito satisfeitos.
Não encontramos dificuldades na fase final das negociações. Correram melhor do
que esperávamos.»
Na sua mensagem de renúncia, em 30/9/74, o general
Spínola aponta como um dos motivos «a desvirtuaçâo do ideário do Movimento
das Forças Armadas» e acrescenta:
«Após profunda e demorada
reflexão tomei a nítida consciência de não estarmos a caminhar para o país novo
que os Portugueses desejam construir.
Conclui assim ser inviável a construção da
democracia sobre este assalto sistemático aos alicerces das estruturas e
instituições por grupos políticos cuja essência ideológica ofende o mais
elementar conceito de liberdade, em flagrante desvirtuaçâo do espírito do 25 de
Abril.
Encontro-me, portanto, perante a
impossibilidade de execução fiel ao Programa do Movimento das Forças Armadas, o
meu sentido de lealdade inibe-me de trair o povo a que pertenço e para o qual,
sob a bandeira de uma falsa liberdade, se estão preparando novas formas de
escravidão.»
Outro membro do M. F. A ., o general Costa Gomes,
assume na mesma altura a Presidência da República, e em discurso no acto de
posse, afirma:
«Na descolonização, não houve qualquer desvio
ao Programa das Forças Armadas. Visto que, em todos os actos políticos, não
haveremos de sujeitar-nos a esquemas rígidos preconcebidos, teremos, sim, de,
em respeito pêlos grandes princípios, orientar a evolução dos acontecimentos
face à constante mutação da conjuntura política enquadrante.»
e
mais adiante:
«No processo de descolonização tudo faremos
para respeitar os legítimos interesses das populações locais procurando o justo
equilíbrio na criação das condições de fraternidade, de respeito mútuo e de
amizade que substituirão laços anteriores historicamente ultrapassados.»
No mesmo dia, o Dr. Mário Soares, então Ministro dos
Negócios Estrangeiros, acentuava à imprensa:
«Como ficou demonstrado recentemente nas Nações
Unidas e no Conselho da Europa, o mundo aprova hoje os processos de
democratização e de descolonização levados a cabo em Portugal.
Todas as garantias foram dadas de que esses processos continuarão a
evoluir segundo as linhas de acção previstas em 25 de Abril.»
É
caso para perguntarmos: quais linhas?
A
Junta de Salvação Nacional é saneada com o afastamento dos generais Manuel
Diogo Neto, Jaime Silvério Marques e Galvão de Melo.
No
dia 8/10/74, o Dr. Álvaro Cunhal, secretário-geral do P. C. P., numa conferência
de imprensa realizada no Club Atlético de Campolide, disse:
«O General Spínola teve um papel político
importante num dado momento, mas que se tinha tornado num travão para o
desenvolvimento das liberdades democráticas e a descolonização.»
Participando num debate sobre assuntos internacionais,
da Assembleia Geral da O. N. U., em 9/10/74, o então secretário-geral da
Organização Africana Mahomed Siad Barre, também chefe de estado da Somália,
afirma:
«Portugal não tem que recear pela segurança do seu Povo, propriedades e interesses na África libertada, uma vez que não está na natureza dos africanos serem vingativos.»
Em
17/10/74, o ministro da Coordenação Interterritorial, Dr. Almeida Santos, vai à
Indonésia para conversações com o ministro Adam Malik, sobre Timor.
Durante
contactos anteriores, Malik e o M. N. E., Dr. Mário Soares, haviam concordado
em realizar consultas regulares entre os dois governos sobre o processo de
descolonização.
Ao
deslocar-se a Timor, o Dr. Almeida Santos admira-se com o portuguesismo dos
timorenses e em especial com a sua veneração pela bandeira nacional, cuja
sombra não permitem que seja pisada, sendo com emoção que refere estes
pormenores à sua chegada a Lisboa.
Uma
delegação mista de Portugal e Angola, chefiada pelo general Fontes
Pereira de Melo, desloca-se a Kinshasa, é recebido por Mobutu e faz contactos
com a F. N. L. A. e com o vice-presidente do M. P. L. A .,Daniel Chipenda.
O
general, declara:
«Um dos pontos principais da
minha deslocação aqui, foi reafirmar que estavam plenamente válidas as soluções
que tinham sido encaradas e delineadas no encontro, em 26/9/74, na Ilha do Sal,
entre o General Mobutu e o general Spínola.”
Em 14/10/74, Holden Roberto dá ordens para cessar-fogo
por parte da F. N. L. A. e Daniel Chipenda, um dos leaders do M. P. L. A .,
numa entrevista a um jornal sueco, diz:
«Tanto quanto posso avaliar, a subida ao
poder do general Costa Gomes, levará a uma aceleração do processo de
descolonização de Angola.»
e
acrescenta:
«O mais importante é a democracia,
mas com Agostinho Neto a democracia é impossível. Não queremos perder os
brancos de Angola — têm uma grande importância — mas deverão tornar-se
angolanos.»
Foi nesta altura que a U. N. l. T. A. começou a
instalar em Luanda os seus quadros políticos vindos da Suíça, onde estavam a
frequentar cursos superiores.
Em
17/10/74, o Presidente da República, general Costa Gomes, fala na O. N. U.
sobre a descolonização e afirma:
«No processo de
descolonização manter-nos-emos fieis aos princípios do Direito Internacional da
autodeterminação e independência; na aplicação concreta dos princípios, teremos
a flexibilidade de espírito suficiente para salvaguardar os interesses dos
povos a descolonizar; seremos tão dinâmicos quanto o exige a impaciência de
quem toma uma tarefa com muitos anos de atraso e tão pacientes quanto
indispensável à felicidade
dos povos que sofreram na carne as consequências da anterior situação política
portuguesa.»
«Saberemos evitar figurinos estereotipados e
procurar para cada território a solução mais adequada à garantia da génese
feliz de uma nova Pátria.»
Em
21/10/74, o Dr. Agostinho Neto e os seus colaboradores mais próximos, à revelia
da facção Chipenda, assinam um acordo de cessar-fogo entre o M. P. L. A. e
Portugal.
O
Dr. Mário Soares, M. N. E., reúne-se em Tunis, Tunísia, em 7/11/74, durante
algumas horas, com Johnny Eduardo, director dos Assuntos internacionais do F.
N. L. A. e este declara aos jornalistas:
«Decidimos com o Dr. Mário
Soares, «saltar alguns obstáculos» a fim de andar mais depressa, porque ambas
as partes concordaram que o tempo pode não ser sempre a favor do movimento de
libertação e de Portugal.»
e
insistiu:
«Decidimos andar mais depressa e haverá mais
reuniões muito em breve.»
Declarações aos órgãos de informação, pelo almirante Rosa Coutinho, em Luanda, no dia 17/11/74:
«O árbitro deste jogo, se assim lhe podemos chamar, são as Forças
Armadas Portuguesas. Como comandante-chefe em Angola eu sou, portanto, o chefe
dos árbitros. Naturalmente como o mais responsável, sou o mais atacado. Essa
ideia da minha substituição faz-nos considerar que muita gente aqui deseja que
eu me vá embora. Não sei porquê! Talvez seja pelo papel desagradável do
árbitro; porque eu sinto que esta gente tem receio de que no processo de
descolonização em curso de que eu sou árbitro, os seus privilégios e interesses
sejam directamente afectados. Não sei porque tomam essa atitude, visto que o
processo é irreversível. Há, realmente, que adaptar Angola a condições novas e
não pensar que com o desaparecimento do colonialismo português se dará lugar ao
aparecimento de um colonialismo interno angolano.»
********************
A história da Pátria está sendo escrita e registará, mas daqui a alguns anos, todas estas atitudes. Que saiba ser independente são os nossos votos.
Mas a vida das pessoas é curta e, por isso, tentamos, com este modesto trabalho, registar, enquanto existem testemunhos vivos, as opiniões dos políticos que estão na origem da desgraça e do sofrimento de milhões de pessoas, sem distinção de raças, cores ou credos políticos.