Angola a passos largos
O povoamento das terras ultramarinas foi tão lento e difícil que Elias A. da Silva Correia, na sua HISTÓRIA DE ANGOLA, ao falar de Luanda, refere a falta de crianças brancas e diz:
«a vista nos confirma que ou forão infecundas ou os seus frutos degeneraram ou feneceram pois que a raça branca é estrangeira no país.»
Em 1800, o Governador de Angola dizia para Lisboa:
«... não consta que tenha vivido além de sete anos criança branca, nascida e criada em Benguela.»
Seria um vasto repositório de lutas, sofrimentos, mortes pela inclemência do clima, mas não é aqui o lugar para isso.
Basta que se diga que, em Angola, nos meados do século passado, a actividade comercial era incipiente, e as outras actividades eram nulas ou não tinham significado. Havia pouca gente e não havia dinheiro para as fazer andar.
A penúria era tanta que não resisto à tentação de citar o Governador António Sérgio de Sousa, em carta para o Ministro da Marinha e Ultramar — 10/06/1852:
“... que tendo chegado a este porto a corveta de guerra D. João I, procedente de Macau, e fazendo o respectivo comandante algumas requisições para pagamento de soldadas à marinhagem,... não estarem os cofres habilitados nem sequer para pagar este mês, uma quinzena à estação naval...»
Segundo o Dr. Alfredo Diogo Júnior:
« ... foi um passageiro daquela corveta que adiantou a soma necessária ... sob a responsabilidade do mesmo comandante, e a um câmbio bastante favorável para a fazenda.»
Dum relatório de Paiva Couceiro, elaborado há pouco menos de um século, extraímos:
“A exportação de Angola foi, em 1895, 6034 contos-ouro, com a libra a 4$55; em 1910 a exportação
subiu a 8933 contos-ouro, com a libra a 4$99.»
«Calculei em 90.000 contos-ouro, equivalente a vinte milhões de libras-ouro, o valor da borracha que
de Angola se exportou nos 35 anos decorridos de 1875 a 1910.»
«A produção dos colonos brancos, com mão-de-obra preta, de café, algodão, aguardente de cana
e peixe seco de Moçâmedes ... dificilmente se chega a um valor de 2.550 contos-ouro para a
produção directa ...»
O preço da borracha teve uma queda fulminante em 1910-1911. Porque cito estas datas e estes valores?
Porque nos últimos anos do século XIX e no primeiro quartel do século XX, nascia a geração que viria a dar um primeiro grande impulso para o crescimento de Angola.
Vamos dar
um salto para 1943 e consultando o Relatório e Contas do Banco de Angola, vemos
que a Produção
Industrial atingiu já 129.053 tons., 1.189.164 litros de álcool, 794.990
quilates de diamantes, 99.462 pares de sapatos e alpercatas, etc.
A Produção Agrícola somou 2.031.023 toneladas,
destacando-se o milho, cana de açúcar, café, arroz, mandioca, feijão, trigo,
massango, etc., etc.
As exportações de Angola atingiram 286.943 toneladas
no valor de 593.379 contos e as Importações somaram 55.019 toneladas no valor
de 355.070 contos.
O Erário
Público arrecadou 157.872 contos.
A população
de Angola era de 3.738.010 habitantes pelo censo de 1940.
TRINTA ANOS depois — 1973 — último ano em que a
calma e a euforia do progresso contagiava as populações de Angola, em que o
mercado de trabalho encontrava, diariamente, novos postos para o exercício de
novas e velhas profissões, os números são já muito interessantes:
13.844.026
toneladas (café, milho, algodão, sisal, madeiras, arroz, tabaco, trigo, leite,
carne, pesca,
etc., etc.
6.052.194
toneladas de minério de ferro;
8.175.201
toneladas de petróleo bruto;
2.124.720
quilates de diamantes;
186.334.000
litros de cerveja;
e ficam por
mencionar os pneus, fios eléctricos, cobertores, sacos e outras embalagens, toda
uma actividade que ultrapassou, no seu conjunto, os 40 milhões de contos.
E o investimento na construção civil, energia
eléctrica, caminhos de ferro, companhias de aviação, melhorias nos portos, no
abastecimento de águas, quantas coisas ficam por mencionar! ...
Mas diremos que Angola exportou em 1973, 15.446.491
toneladas de produtos, no valor de 19.158.291 contos e importou 1.055.277
toneladas de produtos, no valor de 13. 268.873 contos; que o Erário Público
arrecadou 13.707.393 contos de receitas ordinárias, 2.623.318 contos de
receitas extraordinárias e 1.689.074 contos de impostos directos gerais, tendo
as despesas públicas atingido 15.733.857 contos — ordinárias e extraordinárias.
Já me
alonguei demasiado e, no entanto, o quadro que fica exposto está longe de ser
completo.
Nem sequer
toquei, ao de leve que fosse, na educação e na saúde, nem sequer na
administração.
A economia é o suporte da estrutura de um país e
nela brilhou forte, o suor do vosso esforço, por isso a escolhi.
A população em geral, que é a sua maior riqueza,
está presente no desenrolardes quadros expostos e era estimada em 6.761.000
habitantes, em 1975.
Há muito que a 2.ª
geração do século estava empenhadíssima no desenvolvimento de Angola e os
autóctones já estavam nas fábricas e nas empresas, nas repartições e nas
escolas, assumindo a sua quota parte das responsabilidades e do querer.
Os números que ficaram acima, dizem-nos, sem sombra
de dúvidas, que do pouco que tínhamos e fazíamos ao virar do século, passámos
para mais de 40 milhões de contos no final do 3.º quartel do século XX.
Os obreiros desse desenvolvimento e desse esforço
sabem que podiam ter ido mais além e só o não conseguiram por terem sido
travados pela Metrópole.
Com o fim do monopólio do Banco de Angola, esta província
viu-se invadida por vários bancos metropolitanos ou bancos por eles criados,
dois dos quais associados a bancos estrangeiros e, no entanto, um banco pedido
por financeiros angolanos nunca viu deferido o seu pedido.
Penavam os empresários angolanos para obter alvarás
para qualquer indústria de média ou grande dimensão e logo aparecia uma empresa
metropolitana a preencher esse espaço.
A administração pública era dominada por
metropolitanos, desde os governadores gerais aos de distrito, desde os presidentes
das juntas aos directores de serviços.
O primeiro governador de distrito não branco, e
cremos que único, que tivemos, era de Cabo Verde e já próximo do fim de tudo
tivemos um, branco, natural de Angola! ...
E fiquemos
por aqui ...
Voltemos às duas gerações que reivindicam para si o
orgulho de terem sido os principais fautores do crescimento de Angola, sem
olvidar e prestar comovida homenagem a todos quantos tentaram, antes deles, com
abnegação, coragem, privações e lutas cruentas, conquistar um espaço, quase
sempre esquecidos do Terreiro do Paço.
Não fossem os
crápulas sem honra, mas com proveitos, e a nossa obra estaria de pé. E dela
estariam orgulhosos os esbulhados e também aqueles que a ajudaram a construir e
que gostariam que os tivéssemos acompanhado, já que ainda não estavam
suficientemente seguros para andar pelo seu pé.