O DIABO – 10.08.2004

OPINIÃO & POLÉMICA

Mário Soares e a “Descolonização”

     A edição de 23 de Abril do «Se­manário», inclui uma entre­vista ao Dr. Mário Soares com o título «Tenho muito orgu­lho na Descolonização».

Aí refere o entrevistado que os 3 «D's» do 25 de Abril foram am­plamente conseguidos.

A Democratização de Portugal foi realmente um dos objectivos conseguidos e esse aspecto é de realçar, uma vez que restituiu a liberdade ao Povo.

Quanto ao Desenvolvimento, verificaram-se progressos assina­láveis em várias áreas, nomeada­mente na saúde (Serviço Nacional de Saúde), no alargamento da Edu­cação (embora haja aqui campo para melhorias significativas, de que é exemplo o flagelo do aban­dono escolar), nas infraestruturas rodoviárias, no estabelecimento de um salário mínimo e em muitas áreas que merecem ser reconheci­das. Contudo, e de acordo com as estatísticas, continuamos na cau­da da Europa, no que respeita a níveis de desenvolvimento. Cabe aos economistas isentos chegar a conclusões credíveis sobre essa ma­téria.

No que respeita ao terceiro D — «Descolonização» — é no mí­nimo espantoso, que o Dr. Mário Soares se considere «orgulhoso» da sua actuação neste processo, revelando um total desrespeito e desprezo por centenas de milhar de Cidadãos Portugueses Espoli­ados do Ultramar, e aproveitando para, de forma absurda, apelidar aqueles que fazem uma análise diferente da sua, de «reaccionári­os» e «saudosistas» (termo este que parece, ultimamente, estar muito em voga).

Considera o Dr. Mário Soares que, no chamado processo de «Des­colonização», «... se evitaram o descalabro e o abandono e nego­ciou-se com grande dignidade, tendo em conta sempre os interes­ses nacionais».

Esta opinião é verdadeiramen­te incrível, visto ser a absoluta contradição de tudo o que se veio a verificar efectivamente, no cha­mado processo de «Descoloniza­ção».

Exige-se que haja um mínimo de seriedade intelectual na análise destas matérias, pois o dito proces­so afectou a vida de milhões de pessoas!

   As declarações dos principais responsáveis políticos Portugueses antes e pós-25 de Abril, asseguravam a defesa da integridade e dos bens dos Portugue­ses do Ultramar.

O Dr. Mário Soares, na quali­dade de Ministro dos Negócios Estrangeiros, ao partir para Lusaka, no dia 04/09/1974 afirmou, no Aeroporto de Lisboa:

«Parto bastante optimista para as conversações de Lusaka. Os acordos de cooperação que estão em estudo são muito vastos e posso dizer que os interesses de Portugal e dos Portugueses, que são legítimos e reconhecidos pela própria Frelimo, serão devida­mente acautelados».

    A Junta de Salvação Nacional fez publicar o Dec.-Lei n° 203/74, de 15 de Maio, com as competências do Governo Provisório e de cujo número 7, alínea C) consta: «Manutenção das operações defensivas no Ultramar, destina­das a salvaguardar a vida e os haveres dos residentes de qual­quer cor ou credo, enquanto se mostrar necessário».

Como é do conhecimento ge­ral, contrariamente a todas as pro­messas feitas pelos dirigentes po­líticos Portugueses de então, cedo se começou a verificar o descala­bro completo da ordem e direitos dos Cidadãos Nacionais, nas Pro­víncias Ultramarinas.

Não se pode deixar de relem­brar que, nos termos da Constitui­ção Portuguesa em vigor nessa altura, o Ultramar era parte inte­grante de Portugal! A quem con­vém que isto se esqueça?

O Estado Português omitiu as suas responsabilidades ao não to­mar medidas concretas de protec­ção e defesa dos direitos dos Cida­dãos Nacionais que, para salva­guardar a sua integridade física, se viram forçados a abandonar apressadamente o Ultramar, de um dia para o outro, tendo sido espo­liados de todos os seus bens e de uma vida inteira de trabalho.

No caso dos Cidadãos Africa­nos, viram-se envolvidos em guer­ras entre as diferentes facções po­líticas, nas quais morreram ou fi­caram mutiladas, ou com a vida destruída, milhões de pessoas!

Considera ainda o Dr. Mário Soares que «...se negociou com grande dignidade, tendo em con­ta sempre os interesses nacio­nais.»

     Mais uma vez, o que veio a verificar-se na realidade foi exac­tamente o contrário! Negociar com dignidade e ter em conta os interesses nacionais significava ter efectivamente salvaguardado os interesses do Cidadãos Portugueses, conforme tinha sido prometido.

 

Há centenas de milhares de pessoas que ainda hoje sentem esse trauma e que foram lesadas com tudo o que aconteceu. É de uma enorme falta de seriedade querer passar a mensagem de que não existem ressentimentos e de que «...está tudo bem...»}

      A  chamada    «Descolonização», nos

moldes em que decorreu, foi de uma irres­ponsabilidade total! O Estado Por­tuguês, através dos seus represen­tantes, abandonou os Portugue­ses do Ultramar à sua sorte!

O Sr. General Carlos de Aze­redo, que foi Chefe da Casa Mili­tar do Dr. Mário Soares, publicou recentemente um livro intitulado «Trabalhos e Dias de um Soldado do Império».

No capítulo V, quando se refere à chamada «Descolonização Exemplar», afirma que, e passo a citar, «...em nome de uma "legiti­midade revolucionária ", foram abandonados miseravelmente brancos e pretos no Ultramar, ar­ruinou-se a economia, as estrutu­ras de saúde e do ensino, a Paz e o Progresso de países imensos como Angola e Moçambique. Não se critica aqui o reconhecimento e a aceitação das independências havidas, mas tão-somente o modo como as coisas foram feitas».

Umas linhas adiante, afirma que «...a chamada "Descolonização" foi, na verdade, a vergonha da nossa História Contemporânea».

Toda esta questão relacionada com a Descolonização Portuguesa é muito desconfortável para mui­tas pessoas, que recomendam que se deve é olhar para o futuro, e que a História se encarregará de as jul­gar!

Com esta ligeireza de proces­sos, e com o andar do tempo, abrir-se-ia um precedente interessante. Amanhã, qualquer pessoa, con­frontada pela Justiça, passaria a exigir idêntico benefício e, moral­mente, a ter direito de usufruir do mesmo. Para quê a Justiça, se a História se encarregaria de a jul­gar...

Já é altura de acabar definitiva­mente com esta mentira colectiva, que alguns políticos tentam impor ao Povo, de que a «Descoloniza­ção» foi «exemplar», ou a «possí­vel».

      Os órgãos de Comunicação So­cial têm aqui um papel de enorme responsabilidade, devendo lutar por uma posição de isenção face aos corporativismos estabeleci­dos. Começa a sentir-se o enorme perigo que provém de se obterem sempre as mesmas opiniões, pois as pessoas entrevistadas são sem­pre as mesmas, vinculando constantemente só a sua verdade!

Uma unicidade de pensamento — como a que resultará do acima descrito — pode vir a constituir um verdadeiro perigo para a dese­jada pluralidade dos valores, para o crescimento da sociedade pen­sante e, portanto, para a própria democracia!

Se a «Descolonização» é, tal como refere o Dr. Mário Soares, uma coisa de que nos devemos orgulhar, porque não se fazem tam­bém cartazes e DVD's sobre a mes­ma e entrevistas aos Espoliados para estes poderem expressar as suas opiniões sobre a dita «Desco­lonização»?

A Constituição Portuguesa de 1822 (note-se bem, há 182 anos!) enunciava:

Artigo l — A Constituição po­lítica da Nação Portuguesa tem por objectivo manter a liberdade, se­gurança e propriedade de todos os portugueses.

Artigo 3 — A segurança pesso­al consiste na protecção que o Go­verno deve dar a todos para pode­rem conservar os seus direitos pes­soais.

Artigo 6 — A propriedade é um direito sagrado e inviolável que tem qualquer Português de dispor à sua vontade de todos os seus bens, segundo as leis. Quando, por alguma razão de necessidade pú­blica e urgente for preciso que ele seja privado deste direito, será pri­meiramente indemnizado, na for­ma que as leis estabelecerem.

Relembro a Declaração Univer­sal dos Direitos do Homem, que, no seu Artigo 17°, declara:

a) Toda a pessoa, individual ou colectivamente, tem direito à pro­priedade.

b) Ninguém pode ser expropri­ado arbitrariamente da sua propri­edade.

Mas, enfim, quando não é con­veniente, o conteúdo deste docu­mento, pedra basilar da Justiça e de um verdadeiro Estado de Direi­to, deixa de ter qualquer impor­tância...

Firmino Fonseca

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