Gostaria de vos dizer duas palavras no sentido de que me parece que este Congresso, para além do carácter reivindicativo que já teve há dois anos, deveria ser também de auto-afirmação. Como os governos nos têm sistematicamente menosprezado, parece-me adequado que se faça ressaltar neste lugar a imensa distância entre o que as colónias eram no início do século e aquilo em que, em boa medida à custa do nosso esforço, se tinham tornado nos anos 70.
Do desenvolvimento alcançado falarão neste Encontro consócios qualificados, que vos apresentarão factos e números. A mim cabe-me antecedê-los, não com descrições exaustivas que a todos fatigariam mas apenas com um ou outro apontamento que recorde — e aos senhores do governo diga, ao que parece, pela primeira vez — o que era a África de há umas dezenas de anos atrás.
Em fins do século passado o insuspeito António Enes notava, a propósito de Moçambique, que verdadeiras fazendas de europeus, praticando uma agricultura regular, eram oásis que se inventariavam em apenas duas linhas (ouvireis certamente dizer dentro de alguns momentos quantos milhares de toneladas de algodão, sisal ou copra, para não falar de café, diamantes e petróleo, se exportavam à data das independências ..).
Mais pitorescamente, outro autor do século passado narrava o percurso do Zambeze até Sena: fazia-se “entre elas cerradas de mangues, de cuja ramaria os macacos faziam gaifonas aos crocodilos que tomavam o sol no lodaçal descoberto; e a desolação só era interrompida por uma ou outra quitanda de monhé”.
A Beira foi resgatada aos pântanos, como sabemos, e Lourenço Marques, de insalubre que era até à florestação da sua baixa, afastou os missionários suíços para os arredores, apesar da sua indesmentível dedicação à causa religiosa. Em Lourenço Marques, em 1907, o número de mulheres brancas era de nove.
Viajava-se normalmente a pé ou de machila. Em Angola, quando em 1912 Norton de Matos foi nomeado governador, tirou de imediato uma conclusão óbvia: para governar o território tinha de o conhecer. Mas não havia estradas, pelo que teve de construi-las, a despachar e sem obedecer aos rigores dos ensinamentos que lhe tinham transmitido. Deixaria construídos 25.000 kms de estradas, o controverso governador.
O omnipresente paludismo que por diversas vezes vitimou Serpa Pinto ... Ainda em nossos dias, as mortíferas biliosas, as perniciosas, a tifóide — quem as não recorda?
Em escassas dezenas de anos ocorreu, pois, o progresso que conhecemos. Como a maior parte de nós trabalhou em alguma das ex-colónias durante 20, 30, 40 anos ou mais, fácil é concluir que a nós se deve boa parte do desenvolvimento que nos anos 70 era a imagem de marca dos territórios ultramarinos portugueses.
No entanto sabemos, sentimos na própria pele, que o ingente esforço que nós, e outros como nós, aplicámos em domínios que faziam parte da Nação não é reconhecido e muito menos apreciado. O governo não se dá sequer ao incómodo de nos receber, apesar de diversas solicitações que nesse sentido têm feito a AEMO e a AEANG, nem tão pouco responde aos nossos telegramas, cartas ou desafios lançados na imprensa.
É evidente que o governo, este como os anteriores, nos vê como uma espécie em vias de extinção. Mas neste momento é bem de crer que esteja com sobressaltos. Há sinais indesmentíveis de que, ao contrário das suas previsões, os ultramarinos vão estar mais uma vez na ribalta: com mais voz do que nunca, com apoios até há pouco insuspeitados, com uma esperança finalmente renovada.
Amigos, façamos deste Encontro uma
celebração. Tudo vai mudar, tudo começou já a mudar!