Associações de espoliados de Angola e Moçambique acusam: “Políticos andam a enganar-nos desde 1975”
Está a esgotar-se a paciência dos dirigentes da AEANG e da AEMO relativamente às garantias do
Governo para ressarcir os milhares de lesados que ficaram desapossados dos seus bens aquando da descolonização.
Fartos de promessas, não rejeitam criar um partido político e sair para a rua em manifestações massivas
NUNO DIAS DA SILVA RICARDO GUILHERME(FOTOS)
O rescaldo dos 30 anos do 25 de Abril, um dos
temas tabu e espinho encravado da História recente portuguesa, voltou a ficar de fora do debate — a descolonização
do Ultramar. As declarações de Mário Soares indignaram muitos retornados que se sentem lesados pelo «abandono»
a que foram vetados, após uma decisão política «precipitada». O ex-Presidente da República referiu «sentir
orgulho na descolonização» pela qual, aliás, foi responsável. Fernando Lucas Martins, o Presidente
da Associação de Espoliados de Angola (AEANG), diz que essas declarações «dão-lhe vontade de rir» e recorda
a intervenção de Soares no «Dia do Trabalhador», em 1974, em que garantiu «não querer abandonar os portugueses
em África» e prometeu «defender os seus legítimos interesses». O que se viu foi todo o contrário. «Angola
tinha paz, indústria, diamantes, etc. Se Soares, então como Ministro dos Negócios Estrangeiros, quisesse,
não tinha feito a descolonização da forma que fez. As declarações de natureza diversa que tem produzido
sobre esta temática só revelam que ele é um cata-vento, que não olha a meios para atingir os fins. É
o principal responsável pela desgraça», acusa, sem papas na língua, Lucas Martins. Mais moderado, mas
igualmente critico, o presidente da Associação de Espoliados de Moçambique (AEMO), Vasco Rodrigues, admite
que «uma inverdade repetida várias vezes torna-se verdade perante a opinião pública» e que com o passar
dos anos tenta «branquear-se o modo como foi feita descolonização». Lucas Martins lamenta que «tenha
sido o próprio Governo português a correr connosco de África». O dirigente associativo acredita que a
actual situação de guerra e pobreza patente nas ex-colónias portuguesas é «reflexo do modo atabalhoado
como foi desenvolvido o processo». Vasco Rodrigues lembra que a França, a Holanda e a Grã-Bretanha, só
para citar alguns exemplos, mantêm-se países ricos e com prestígio: «foram formas distintas de abordar
a descolonização», justifica.
Pugnar pelo direito à indemnização
Mas é na responsabilidade
política que entronca toda a problemática da descolonização. Com o mal feito, resta reparar, na medida
do possível, os lesados que foram desapossados de terras e haveres. Depois de décadas de indiferença,
a luz ao fundo do túnel chegou com as promessas feitas por Paulo Portas, na sua condição de presidente
do CDS/PP. Uma vez no Governo, um dos pontos incluído no programa do Executivo foi o da indemnização
dos espoliados do Ultramar. «A legislatura vai a meio e continuam por satisfazer as nossas exigências.
Apesar disso mantemos a confiança neste Governo de coligação», afirma Lucas Martins. «Nem o argumento
do "país de tanga" nos serve de consolo», acrescenta o mesmo dirigente, lembrando que o actual Ministro
da Defesa — com quem tem mantido contactos regulares — se comprometeu publicamente a resolver o problema.
«Escaldados», os dirigentes da AEANG e da AEMO, afirmam «que os políticos andam a enganar-nos desde 1975
e a esmagadora maioria dos órgãos de comunicação social têm deliberada-mente esquecido a nossa luta».
Lucas Martins adianta que «os partidos nascidos após a revolução não corresponderam às expectativas,
preferindo olhar para o seu umbigo e descurando uma causa nacional, como é esta de ressa-cir os espoliados».
«Juntos pelo coração» e fisicamente mais próximos, desde o momento em que partilham um quinto andar
da «Baixa» de Lisboa, os dirigentes das duas associações garantem «funcionar em bloco». Estima-se que
de Angola tenham retornado 400 mil pessoas à «metrópole» e de Moçambique, 300 mil. Os valores concretos
das indemnizações são incertos e ninguém ousa fazer uma previsão dos montantes em jogo. Em termos oficiais,
existe apenas um estudo «a quente» do gabinete do Secretário de Estado dos Retornados, em que se estimou
que o Estado português deixou na ex-colónia angolana l bilião de contos. Com uma maior margem
de segurança pode garantir-se que se forem pagas as indemnizações, estas serão liquidadas caso a caso.
«O que queremos é que seja reconhecido aos espoliados o direito à indemnização, que seja estabelecido
um enquadramento legal e depois, sim,os montantes serão negociados», dizem, em uníssono, Vasco Rodrigues
e Lucas Martins.
Combate politico e judicial
Caso não seja dada uma resposta
em conformidade, as medidas de forca poderão ser as mais diversas: manifestações conjuntas, a criação
de um partido político que congregue os espoliados e outros desprotegidos, e o reforço das acções judiciais
visando o Estado português nos tribunais, são algumas das iniciativas possíveis. A morosidade processual,
aliada aos recursos e ao risco de prescrição, faz com que a totalidade das acções a correrem nos tribunais
continuem distantes do desfecho. Dos processos que deram entrada a partir de 1998 não se conhece ainda
qualquer sentença. Enquanto a associação de Moçambique contabiliza pouco mais de duas dezenas de
processos judiciais (a maioria por depósitos consulares pagos sem a devida correcção monetária), do lado
da associação de Angola, esse número «dispara» para os 1400 processos, a maioria visando o Estado português.
«No nosso caso sempre se pensou numa solução de cariz mais político do que propriamente judicial», explica
Vasco Rodrigues. Formas de luta à parte, tanto Vasco Rodrigues como Lucas Martins acreditam que estamos
na presença de uma «causa justa» e que se assim não fosse, muitos milhares de espoliados das ex-colónias
já tinham desmobilizado. In O DIABO - 11.05.2004
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